sexta-feira, março 03, 2006

Três Atos para o Grande Amor III

Foto: Chicago - Wagner Cassal Corrêa
Terceiro Ato

O Grande Amor é uma esfinge que prefere ser devorada mil vezes, ao invés de entregar a sua senha. Antes, esgota a Palavra pela metade. Mil vezes Amor. E de nada adianta suborná-la com presentes vistosos, tampouco corromper-lhe as virtudes com encantadoras canções. Não importa quando seja, chega sempre cedo demais, o Amor, e esta precocidade não é definida por qualquer idade. É algo como graduar-se no primeiro ano de um curso e precisar cumprir todo o resto do tempo mesmo assim. Todo o depois, então, perde o significado, ante a experiência irreproduzível. A espera é tempo cheio de incertezas, apreensões, possibilidades. Depois dele, é tempo de dar-se graças, por todo o tempo que o Tempo restar. Talvez por isso é que os amantes - em situações muito especiais - pensam que, naquele momento exato, morrer parecer-lhes-ia adequado. É como quisessem congelar ali, no ápice das importâncias todas, a experiência fundamental. Nenhuma espera a mais, tudo (des) concretizado na certeza de ter obtido o conhecimento maior. Nenhuma lembrança deveria sobrevir ao Amor estabelecido. Nada que pudesse bulir com o encantamento de haver chegado, conhecido, desfrutado, ser atravessado pelo Caudaloso. Mas, voltando à esfinge, o Amor é muito mais do que um mistério ou um lugar. É antes um colo, um abraço, um olhar, mil vezes mais do que um solo, onde ocorreu de dois renascerem. O Grande Amor é uma música que se conseguirá jamais aprender. Ensina que a vida é arte que, sempre que compreende-se uma parte, o Grande Amor surpreende e, da outra, já fez esquecer. O Grande Amor é um vaso ornado por raro afresco. Quebrado, jamais será o mesmo. Reordenados os cacos se descobrirá um mosaico de inestimado valor. No ancoradouro do Grande Amor tem braços de Porto e uma lua que ilumina - se inteira - os caminhos de não se perder.

11 comentários:

Azzuma disse...

Lindo, lindo. O meu preferido. Só sobre ser incorruptível que nao concordo. Ele é dado a concessões e muitas vezes até parecendo uma compra. Mas pouco importa. Talvez exista tantos tipos de amor quanto o número de corações.

Adorei,
Beijos.

Fernando Rozano disse...

O amor e seus atos, mesmo quando atamos nós ele sobrevive. Excelente. Abraços.

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Dos três, o meu preferido.



Beijos

*CC*

Dalva disse...

Muito bonito. Concordo plenamente com tudo! Acho que eu vivi uns mil Grandes Amores... todos eternos.

marcia cardeal disse...

Leio e releio: impressiona-me a translucidez nos três atos. Fui arrebatada, mais uma vez. Beijos.

Marilena disse...

Por força de muito trabalho, estive uns dias afastada daqui e vejo que perdi algumas coisas dos amigos. Tento recuperar o tempo perdido lendo atentamente cada um dos tês atos. Lindos, lindos !! Iluminados e transparentes . Bjs.

Vinícius Mendes disse...

belos... estao caminhando bem os atos...Mas preferi o primeiro, enquanto o amor espera, me pareceu mais espontaneo, de súbito. Achei este terceiro um pouco carregado de preocupaçoes em metaforizar o amor por varias formas. O modo que abriu é otimo, esfinge afaimada.

abraço,
desculpe a liberdade.
vinicius

Azzuma disse...

Fiquei curioso sobre o livro de Amós Oz. Estou procurando-o.
É fácil de achar o "Sélesis" do Nejar por aí? aqui é uma tarefa quase impossível.

Beijos

Edilson Pantoja disse...

O amor em sua profundidade e largura.

luciana MELO disse...

O amor tão belamente cantado assim, minha Lia, só tem sentido no cotidiano mais feijão-com-arroz... é da singeleza que surgem os encantamentos.

Warum Nicht? disse...

nem prosa, nem poesia: cecilia é uma genitora de dogmas!