quarta-feira, junho 21, 2006

Quase Tudo

A lâmpada fraca joga um feixe amarelo exato sobre a mesa do canto. Suficiente. Um avarandado pequeno protege a entrada da sala da casa antiga, com suas cristaleiras de livros. A janela baixa faz as vezes de vitrine. Uns duzentos volumes? Talvez. Constraste com a pompa das vitrines internacionais. Melhor assim, cada coisa ocupando a exata importância que se lhe é dada. Dentro da casa de paredes removidas, uniram sala e quarto e deixaram somente um pedaço de parede. Justo esta, onde minha cadeira se encosta. No antigo quarto, um balcão, bancos altos, poucas mesas, o bar. No armário que deve ter abrigado roupas, agora copos e bebidas, uma passagem quase escondida em outra porta igual, para a cozinha. Sempre gostei da mesa do canto, onde o mundo se descortina.

Do balcão, um homem olha. Além do homem, uma televisão e suas imagens provisórias como as verdades. Um barco sendo invadido por um grupo de piratas-músicos. Os vídeo-clipes são sempre mais elaborados que a vida. Ambos velozes, ambos sucedendo-se em flashes.

Não sou náu à deriva após ataque de corsários. Pacificada como todos os que já foram tocados um dia pelo Imensurável, mergulho os olhos no livro e leio de uma só vez os três primeiros capítulos. Danusa é Quase Tudo o que representa inteireza e liberdade. Respeitando as grandes diferenças em beleza e glamour - ela foi linda como eu não lembrava - gosto de pensar que todos sejamos um pouco essa mistura de ânsias e glórias, sofrimentos sem libertação, possibilidades duramente arrancadas à vida. Vitórias.

Ler o que nos move e modifica é como degustar um bom vinho: em um determinado momento a gente se mistura ao conhecimento: compreende. O homem sentado no balcão agora está de frente para a mesa onde leio. Já não posso enxergar a TV sem olhar diretamente em sua direção. De volta ao livro. O que ele estará imaginando, com esta insistência? Seria eu uma mulher cujo parceiro não apareceu? Ou que teria preferências sexuais inconfessáveis? Uma mulher disponível, à procura? Uma mulher, apenas? Deixo-o em paz, com sua curiosidade. Também ele é um homem e mais as circunstâncias, exclusivamente de sua conta e risco.

No livro, um personagem entrega à mulher eleita os cigarros sempre acesos. Guardo a imagem, fecho o livro. Com um sorriso leve, atravesso sozinha a chuva intensa na noite da Rua das Pedras.

15 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
RE disse...

Agora vai, texto lindo e intrigante pelas circunstâncias....
Bjs
RE
PS. Podes apagar os outros comentários.

Claudio Eugenio Luz disse...

Uma narrativa de vertente fantastica, minha cara.

hábeijos

douglas D. disse...

gosto qdo visitas as minhas imagens...eu, espantalho.

marcos pardim disse...

também eu um homem e mais as circunstâncias, sempre muito mais por meu risco do que por minha conta. quase tudo, não ... tudo aqui é como degustar um bom vinho. obrigado. 1 beijo

Marilena disse...

Meu Deus, fui lendo o texto, que é lindo, lindo, intenso e profundo e fui deixando se criarem em mim as imagens que ele, o texto, quis criar. No final, fiquei com a boa entreaberta diante da grandeza da poesia ... Beijos e boa semana, querida Cecília.

Anônimo disse...

La descrition est telle qu'on s'imagine dans ce café, le livre à la main.Tu écris vraiment bien car en fermant les yeux, je peux te voir lire dans ce café et imaginer ses meubles, l'ambiance... Presque une photo de l'instant Presque tout.

Gros bisous
Jacqueline

marcia cardeal disse...

minhas palavras escorregaram nas suas.um beijo pela beleza e suavidade.

Dalva disse...

A vida segue: é navegar, barco, que não é o porto, ainda!

Mulher de Sardas disse...

Ainda não compreendo o vinho. Sei que falta paciência e maturidade. Mas sei que estou no caminho, muito mais calma e esperta que antes...

Do vinho, por enquanto, aproveito a deliciosa embriaguez que me causa...Talvez da leitura, a mesma coisa.

Um beijo.

Claudio Eugenio Luz disse...

Narrativa profunda e com um leve toque de quero mais.

hábeijos

Ivã Coelho disse...

Estão sempre captando imagens em nossos olhos que não emitimos. Estão sempre equivocados ao nosso respeito, só que a vida avança, sempre que não está nos contrariando e fazendo-nos retrair em dores, pesadelos ou sonhos impossíveis. Sei que deveríamos sempre preservar as imagens belas em nossas retinas, mas são elas sempre que se retiram sem nem dar qualquer explicação, deixando-nos no escuro dos temores.

Imagino agora este conto inteiro dentro de mim, multiplicando-se.

Obrigado pelo sentimento, este, que se acumula em mim.

Beijos.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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