terça-feira, fevereiro 27, 2007

Pretensões


Eu preferia jamais ter tido a pretensão das enxurradas, das geleiras, dos largos vôos. Eu queria não ter sabido nunca o gosto da chuva, a aspereza da pedra molhada, a pena branca descoberta mil vezes na beira da praia. Ou na orla da pele. Eu não sabia que doía tanto quando a gente conhece. Eu não pensava que ficaria desse jeito tonta quando a hora chegasse de abrir os olhos e a claridade. Como ofusca o dia quando não se usam lentes! E não pensava que vertigem fosse uma ventania longa e lenta e que fosse um outono e um verão e tantas temporadas alternadas de susto e alegria. Não me foi dito isso e nem tampouco o outro. Mas assim é. E eu, que tinha a pretensão das certezas embalsamadas, e eu que tinha a suposta sabedoria das décadas acumuladas, e eu que imaginava que sentir era tudo. E eu, que não era nada.

20 comentários:

marcia cardeal disse...

Fiquei desprovida de palavras. Voaram-me. Que bela conjugação de texto e imagem! Que texto, que texto! bj

diovvani mendonça disse...

Ô Cecília, bonito demais, viu? (...) Pacere que toca num lugar escondido da gente. Você é danada. Tão bonito que, vou copiar e imprimir; para ler para os amigos que aparecem lá em casa. AbraçoDasMontanhas.[Apertado]

Claudio Eugenio Luz disse...

Palavras sabias, minha cara.

hábeijos

Wilson Guanais disse...

Cecilia, tem mais lá.

Luciana Melo disse...

Eis a boa surpresa, minha Lia! O acúmulo de experiência não significa que já vimos de tudo.
Beijo na alma.

bambam disse...

é, a vida realmente é uma caverna a ser desvendada, adorei conhecer o seu blog. depois dê uma visitada em meu blog tamém.

marcos pardim disse...

pretender-se, seja lá o que ou a quem for, é parecido com andar à beira de. um escorregão, um resvalo e pimba... mas, pretensiosos, damos corda e o brinquedinho volta a funcionar. 1 beijo

Saramar disse...

Eu sempre estou por aqui, lendo.
Nunca me senti à altura de comentar.
Hoje, porém, que escreveu exatamente o que me dói, preciso agradecer, reverente, por ter as palavras que não tenho para dizer o que sinto.

Marilena disse...

Cecília, Cecília, que lindo texto esse seu. O encantamento me roubou as palavras. Gostei demais. Beijos.

Mario Poloni disse...

Não consegui parar de ler!!! E olha que isso é muito pouco comum pra mim...
Intenso, bonito, desafiador etc etc... Não preciso reprisar os elogios que sobram aos seus textos...
O importante é gostei demais.
Parabéns!

Rubens da Cunha disse...

sou tão igual a ti

Paulo Osrevni disse...

Hmm... erro na mensagem que tentei mandar...

diovvani mendonça disse...

Querendo saber mais de suas pretenções... AbraçoDasGerais.

Jefferson P. disse...

Quem sabe ficar quietinho; perceber que além de palavras temos apenas sentimentos...

Parabéns!

Um bjo grande.

Luciene Danvie disse...

Perdoe-me a intrusão, mas este é um belo texto!
Obrigada!
Boa dia!!

Luciene Danvie

Conceição Bernardino disse...

Olá,

Povo

Ò povo que trais sem saber
O corpo que cansada da luta não
Pode ver

Ò néscio que não tiveste
Quem a ti te ensinasse
A andar.

Ò triste que caminhas com os
Pés dos outros,
Sem saber no que estás a pisar!

Poema da autoria de LILIANA BARRETO do LIVRO POISEIS II

Desejo-te uma bela semana, na companhia deste belo poema que encantou os sentidos.

Beijinhos ConceiçãoB
http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com

Tita Aragón disse...

Lindo, Cecília, que lindo!!!

livia disse...

Cecilia,conhecendo o teu espaço e gostando muito.Beleza e poetica bonita.A vida é atraente,exigente,boa e perversa(parece com os deuses gregos).e assim,somos seduzidas por ela.aproveito para desejar-te um belo dia da mulher9todo dia é)mas vale a confraternizaçao.Abraço

Edilson Pantoja disse...

Muito belo, Lia!
E conhecer é entristecer-se de alguma forma. Mas talvez - talvez - seja melhor que a inocência.
Abraço!

photo-effe disse...

grazie per aver pubblicato la mia fotografia!
il testo è splendido!
bravissima