quarta-feira, maio 21, 2008

Escuros

para Irene

Na noite que cursava funda, Inácia não dormia. Tentou escutar o grão do silêncio se abrindo nas horas de trevas. Nada. Prestou atenção a remotos zumbidos de pernilongos no quarto. Nada. Nem um grilo desvirginava, com seu grito, a mansidão pesada e quente de janeiro. Nem os porcos, nem mimosa no curral, nem. Estreitou os olhos para ver a sombra da persiana e seus vãos fazendo listras no teto. Era pouca, a lua lá fora. Por várias vezes, cobriu e tirou o lençol do corpo quente. Descoberta, começou de novo, o lençol puxado devagar, o pé, a perna, a coxa. A coxa. Teria ainda aquela cicatriz na parte de trás? As mãos tateavam a pele, os flancos, os relevos outros: nada, noite escura demais. Ao lado, o travesseiro amassado na metade vazia da cama.

Osvaldo andava nervoso. Quase adormecida, percebeu quando ele levantou. Não dormia bem há tempos, Osvaldo. Como também fazia tempos, não tinha ganas de homem com ela. A safra do ano passado, perdida pela seca. A chuva chegando na hora errada apodrecendo as sementes recém-plantadas. O financiamento do banco vencendo, a cooperativa pagando pouco pelo pouco que ainda tinham a entregar. Osvaldo não se abria com Inácia. Tantas vezes, a manhã nascendo, ela ouvia do quarto Osvaldo preparando o dia. Inácia gostava das horas da manhã, antes dos meninos acordarem. Os ruídos do mate sendo cevado na cozinha, a bomba do chimarrão deitando barulhos na pedra da pia, a lata da erva sendo aberta, depois fechada, a água chiando. Lembrava-se do pensamento recorrente, neste momento: “a água do mate, chiando, é Deus pedindo silêncio”. Levantava-se descalça, puxava a cadeira para perto de Osvaldo. Pelos pés arroxeados da pedra fria, um dos poucos momentos ternos: ele os esfregava até aquecer e encobria com o pelego. Comungavam da aurora pelo tempo de um termo de mate. Por Inácia, assim seria para sempre. Um dia, depois de um suspiro, ele desabafou: não sei mais o que fazer, negra, não tem mais jeito. Ela confortava: tem, sim, posso trabalhar, os guris já são grandes, podem te ajudar na lida. Ele: deixa os piá. Precisam é de estudar, pra não saberem de aperto. Bastou isso para o silêncio de facão mateiro cortar a varanda em duas metades.

Na noite que cursava funda, Inácia não dormia. Como dormir sono inteiro era luxo que os últimos tempos não permitiam, resolveu sair da cama. A noite escura demais. Silêncio demais. Pela fresta da porta, o vagalume do cigarro aceso na varanda. Ainda pensou compartilhar – escuro e silêncio – mais aquela insônia. Desistiu e voltou para a cama. Mais tarde, ele também voltaria. Ela então chegaria mais perto, a coxa de onde sumira a cicatriz ainda tentaria provocar o homem que morou nele. Adormeceu, sonhando noites melhores. Pressentiu quando ele entrou no quarto, depois saiu. Ouviu-lhe a inquietude abrindo a porta do quarto dos meninos e tornando a fechar. Teve medos por Osvaldo. Lembrou do dia em que, o ventre prenhe e avantajado, foi buscar o tacho da ordenha no galpão e encontrou o sogro pendurado lá no fundo, os pés roxos balançando as unhas sujas de barro, os garrões encardidos do vermelho das terras. Depois, mais nada. Acordou dores de parir e nunca mais quis pensar nisso. Por que lembrava agora, tanto tempo passado?

No fim da noite que cursara funda, Inácia levantou descalça, os pés gelados de pedra ansiando pelego e colo. Osvaldo não estava. Aqueceu a água do mate e pensou a água do mate chiando é Deus pedindo silêncio. Olhou para a mesa vazia sem imaginar que, naquela mesma mesa, em alguns dias, dividiria com os filhos os afazeres de lavoura, chiqueiro e curral.

(Imagem e texto: CeciLia Cassal)

10 comentários:

marcos pardim disse...

este teu conto, tão lindo e tão triste, me fez lembrar que, embora eu disfarce bem, certos escuros me causam muito medo... bj

Dalva Maria Ferreira disse...

O suicídio é um enigma. Sem palavras.
Tristeza...

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

MARAVILHA de texto.

Beijo grande,

*CC*

Beto Mathos disse...

Seu blog é inevitável e necessário.
Esse texto, então...
Grande abraço!

Ádlei Carvalho disse...

Belíssimo!!

Abraço,

Ádlei.

douglas D. disse...

morte e vida
espreitando a todos nós.

(a tua pergunta lá no vomitando despertou um revoar de imagens...)

bjo.

Camilla Tebet disse...

Perfeito esse texto. Um prazer lê-lo. Envolvente, bem escrito e com final que eu não esperava. "..pensou a água do mate chiando é Deus pedindo silêncio.", maravilhoso.
Beijos pra vc.

Fernando Rozano disse...

que conto, CeciLia, que conto! um dia chego perto, prometo. beijo.

Pena Cabreira disse...

Olá Cecília, é com muito prazer que ao retribuir a visita do blog me deparo com este texto sensível e denso, pleno de belíssimas imagens. Literatura é isso, pegar o bicho com a mão e mostrar as suas vísceras. Há muita beleza nisso.
Parabéns!
Pena Cabreira.

Paulo Bentancur disse...

Cecília, tás pensando o quê? Quem tu achas que és!? Já já dou um jeito. Bem... a verdade é que tirando um certo truque literário na expressão "Osvaldo preparando o dia", que falseia um pouco, 99,8% do texto é EXCEPCIONAL, não menos. Puta que te pariu! Ops, desculpas à tua mãe, que pariu uma gênia.

Paulo, o desbocado já teu leitor.