terça-feira, maio 13, 2008

Sobre os absurdos umbigos – por quem esteve lá

Porto Alegre, 12 de maio de 2008.

O Programa: Fronteiras do Pensamento – Salão de Atos da UFRGS
Os Convidados da Noite: Fernando Arrabal e Gerald Thomas

O absurdo:
Após o encerramento abrupto da apresentação do dramaturgo Fernando Arrabal, que não pretendo comentar aqui, entra em cena o segundo convidado, o teatrólogo Gerald Thomas. Das coisas que lembro de ter lido sobre ele, falam sobre fazer parte do grupo que escreve os discursos do Barack Obama, de ter sido entrevistado no Manhattan Connexion, de ter sido casado com a Fernanda Torres, de ter se declarado um homem de nenhum lugar (Nowhere man), das peças esquisitas que minha burrice estética contemporânea ou meu provincianismo não me deixaram alcançar o significado, etc... Sobre esta última afirmação, tenho a confessar que ainda hoje sofro de dificuldades de entender um monte de ganchos de açougueiro ou de garrafas pet amontoadas em um canto como instalação artística, mas repito, este é um problema da minha formação.
Devidamente aplaudido pela platéia em sua acolhida, inicia assim a apresentação: “eu não trouxe crocodilo para o palco (em alusão à apresentação anterior). Já superei o teatro do absurdo” e segue com outras descortesias: “eu nem sei pronunciar o nome disso aqui”. E pergunta para alguém da platéia, que repete URGS, muitas vezes. Descaso. Movimenta-se pelo palco: “deixa ver quem está aqui me ouvindo... há alguém jovem por ai?” ao que algumas pessoas devem ter acenado – “é, vocês até são bem bonitinhas. Eu iria para a cama com vocês”... Insatisfeito com tal performance, revela a informação absolutamente relevante de que há dias não lava os cabelos, pois informaram-lhe que aqui em Porto Alegre faz um frio do cão “se é que frio e cão, assim, juntos, faz algum sentido”. Na continuação, faz com que exibam sua foto com Samuel Beckett e pergunta se alguém da platéia sabia o que era Finnegans Wake (detalhe: Donaldo Schüler, um dos organizadores do evento, na platéia, foi o tradutor do Joyce em questão, pelo que foi homenageado diversas vezes). Desta forma e de muitas outras, o Senhor Gerald Thomas exibiu uma noite de sucessivas grosserias com o povo gaúcho, apresentando-se sem qualquer preparo, declarando não gostar mais deste modelo de apresentação, que não gostaria de estar aqui (certamente que havia alguém, por detrás das cortinas, apontando-lhe uma arma para que falasse). Pena. O ciclo de altos estudos que o Fronteiras representa desperdiçou uma oportunidade e não foi feliz na escolha do convidado. Não houve debate, senão uma representação de um ego gigantesco. E viva os umbigos! Mais da metade da platéia, inclusive eu, saiu durante a apresentação. Cansou de ser insultada e desrespeitada.

Fiquei com vontade de dizer-lhe algumas coisas. Digo aqui:

- Gerald Thomas, Porto Alegre também não é o seu lugar. Volte para o seu lugar nenhum.

(Texto: CeciLia Cassal, Foto: Edgar Morin, o primeiro e melhor palestrante até aqui. Em seus 82 anos de sabedoria e simplicidade, veio da França para honrar-nos com o seu alargamento de Fronteiras)

10 comentários:

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Pois é...

Beijos,

*CC*

marcos pardim disse...

certa vez, e desta certa vez já lá se vão 20 anos, eu era diretor do teatro municipal de salto, cidade do interior de sp onde vivo, e fui a campinas, no centro de convivências, assistir ao espetáculo electra com creta. na entrada do teatro, gerald thomas comprava um saquinho de pipocas. me dirigi até ele, me apresentei e, ato contínuo, ele me respondeu: o que é salto? respondi que era uma cidade próxima e com quem da produção poderia falar, com a finalidade de manter um contato e, quem sabe, poder levar aquele ou um outro espetáculo dele para o teatro que dirigia. debochadamente, ele me respondeu: estamos cumprindo os últimos espetáculos desta temporada, depois rumo para nova york,que é onde passo a maior parte de meu tempo. entendi a ironia, mas ainda assim respondi: isso não tira de mim o direito de tentar levar para o teatro que dirijo a maior diversidade possível de atrações culturais, inclusive os teus espetáculos. antes de se retirar, ele mirou-me bem e disparou: é, a petulância até que não lhe cai mal... beijos pra ti, cecília.

Dalva M. Ferreira disse...

Que tipo! Merecia uma platéia bem mais participante: alguém que lhe participasse ovos ou tomates nas fuças.... Por outro lado, tem aqueles ícones que a gente ama tanto, mas tanto quando os vê ao vivo. Isso me ocorreu com Mercedes Sosa, cantando sentadinha com seu bumbo no meio da estudantada, lá na faculdade de direito da usp. Outro universo!

Rubens da Cunha disse...

hehe,
pra neguinho chegar a isso teve um monte de baba ovo por trás.
infelizmente acontece, mas teu relato é muito bom, deu pra imaginar a cena. pior do que o gerald lugar nenhum, são aqueles locais que se acham deuses hermeneuticos da arte e da filosofia :) aqui tem um monte disso :))

abraços

Beto Mathos disse...

Juntar na mesma noite, no mesmo palco, a genialidade de Arrabal e a pseudo loucura de Gerald Thomas só pode ser comparado à mistura de água da bica com vinho francês.
E não se preocupe, querida, também não consigo conceber um rolo de arame farpado no canto de uma grande sala branca como obra de arte, tão pouco com expressão artística.
E, além do mais, prá que gastar?
Foda-se o Thomas!

Mara faturi disse...

ótimo...muy pertinente seu comentário;maior furo foi o de quem organizou o evento,ora esse senhor está um tanto "ultrapassado" suas brincadeiras não convencem mais, não teria mesmo coisa interessante pra falar...Mister Thomas...Thomas uma grande vaia dos gaúchos...Thomas teu rumo;)
Morin e thomas...qto abismo os separa!
bjo querida poeta!

Valéria disse...

aiiii me deu raiva só de ler... este sábado ele "não esteve" no programa altas horas e mesmo assim só falou porcaria!!!! rs
tanta gente boa que deveria ter visibilidade e estas coisas ficam por aí com seus egos enormes que só fazem ocupar espaço a mais.
beijo

Carol (Tita) disse...

Minha definição para este genérico de ameba: Gerald Thomas ("sabes" onde...) é uma entidade biológica insuportável, egocêntrica, estúpida e anti-higiênica: se não lava os cabelos por medo do nosso 'frio do cão', deveria ser desintegrado, encapsulado e lacrado num túnel de chumbo, no subterrâneo do subterrâneo...

Quem sabe os cientistas que estão investindo zilhões para encontrar a partícula divina a partir da simulação do Big Bang, não queiram estudar também a partícula suína absoluta (perdoem-me os porcos, pois que são inteligentes!) que é Gerald Thomas, o nowhere nothing.

Sérgio Luiz disse...

Cecilia,
Ótimo texto sobre uma péssima figura do "teatro brasileiro"!
Abraços,
sérgio

Paulo Bentancur disse...

Cecília,

glória, aleluia! Post certeiro, no alvo, com jeito de blog mesmo. Concordei com tudo e vibrei com o tom, menos empertigadamente literário. Tu estiveste mais livre ao escrever isto. Talvez com o texto soprado pela santa indignação. Que não te turvou a inteligência, vide a última frase. (Sempre as tuas últimas frases, ótimas.)

Beijos!