quinta-feira, julho 16, 2009

Coisa escondida

Porque foste coisa escondida,
nunca me foi dado o direito
ao teu luto, nem te pude
jogar flores à sepultura
ou questionar de ti
a iminência do fim.
Não me foi concedido
chorar tua ausência amparada
por ombro qualquer,
nem vestir negro,
nem adentrar o barco da tua
última viagem.

Porque a ilusão é sempre uma morte
mais anunciada que acreditada,
caminhei sozinha
ao cadafalso e sorri
um sorriso sem medidas
aos algozes de olhos desprovidos
do mais humano dos medos,
o da remota possibilidade do erro.

É que amar é vida sem tamanhos,
fronteira e não limite,
morte por escolha e entrega.
É que luto de amor
é vitória sobre a indiferença,
acordar depois da anestesia,
merecer a eternidade.
.
Texto: CeciLia Cassal
Imagem: Metades Caras, Wagner Cassal

19 comentários:

Jacinta Dantas disse...

Caramba, Cecília,
estou viajando por suas palavras e me reporto a tantas situações por mim vividas. Seu texto comunica comigo, com minhas dores passadas, escondidas.
Amar o escondido parece tornar o Amor invisível.
Beijo

Mara faturi disse...

Aiii lindinhaaaaa,

o que é este teu texto??!!! eu nem consigo adjetivar...PRECISAVA ERA TE DAR UM ABRAÇO E DIZER; CECI, A TUA POESIA "CORTA COM FIO DE SEDA". Este poema faria um "borderlaine " obter a cura até;)
saudade sempre!
bjos!!!

Edilson Pantoja disse...

Oi, CeciLia!
Obrigado! O gostar é recíproco! Poema forte, moça! Morte, amor... Vida!
Abração!
P. S.: iniciei esta série "Vertigem e significação" e vou alimentá-la por bom tempo. Ah, ainda não conheço o texto que citaste.

Quem é ela? disse...

Impressionante a força das tuas palavras. Me vi no texto em muitos momentos da minha vida.
Saudade e beijos.

douglas D. disse...

tua lua em libra diz o que eu lá pelo vomitando procuro dizer...
(gosto disso)

Luciane disse...

Nossa...........que coisa mais maravilhosa. Obrigada por dar palavras a uma sensação tão intensa. Te admiro. Beijo com saudades!

Dalva M. Ferreira disse...

Que bonito, amiga! Pobre tristeza desamparada, que não pode sequer reclinar a cabeça num ombro amigo.

Anônimo disse...

Beleza e sincronicidade, desde a imagem e música mais adequadas até as palavras iluminadas por
sentimentos candentes.
Impossível não quedar-se em reconhecida admiração! Teus poemas
falam por todos nós - os que sentem!
Um beijo carinhoso...
Samba em prelúdio

guilhermina, (ataulfo) e convidados disse...

...É que luto de amor
é vitória sobre a indiferença...

A psicanálise diz que quem não faz luto, faz melancolia... mas só você pra nos conduzir no luto à vitória.

E que dimensão maior podemos alcançar do que vencer a indiferença?

Salve Cecilia! Salve!
Guilhermina

CIBELE CAMARGO disse...

Olá,
Adorei seu poema,sensivel e suave
Sucesso sempre
Beijos,
Cibele

marcos pardim disse...

cecília, este teu poema me pareceu feito de versos que mais pareciam machadadas, abrem buracos, remexem terras "imovíveis". todos nós, ainda que tentemos desesperadamente ser íntegros e leais, sempre havemos de ter o que esconder, ainda que não seja "nada". por vezes, a tentativa de manter a "coisa escondida" se refere a escondermos de nós mesmos. 1 bj

regina ragazzi disse...

Nossa! Estou encantada com suas poesias.Entrei por acaso e não consigo sair. Lindo demais seu blog. Bjs carinhosos

TH disse...

Esse poema é a costura que não deixa a sétima saia* cair...Bjs

(*As Sete Saias - Claudia Vellela de Andrade)

bossa_velha disse...

Cecília, gosto do teu nome. quanto ao poema, lindíssimo.

diovvani mendonça disse...

Um poema triste, mas de uma tristeza que chega a comover tanto que, dilata a dor do sentimento e faz nascer dele a compreensão que conduz à superação.

Abraço das montanhas,
Diovvani.

Léo Tavares disse...

gostei muito. me parece um desabafo consciente do fim de um sentimento que se tornou nocivo, por isso, ainda que contenha certa amargura, me faz vislumbrar o encerramento de um ciclo para um começo mais iluminado.
a propósito de começos, obrigado pelo seu comentário no meu último texto. encerrei aquele blog e pretendo começar outro em breve.
(precisamos saber como encerrar os ciclos, não?)

Letícia disse...

Lindo!
Como uma pessoa pode sentir tanto e permanecer inteira?!
Grande abraço de quem te adora e admira.

Maria Paula Alvim disse...

Lindo, lindo, Cecília. Da melhor qualidade.

Paulo Bentancur disse...

Cecília,

até para comentar um post desses é preciso uma força tão expressiva, uma capacidade de superação que só tu e teu texto fixam, atingem a outra margem. Eu morro afogado se tentar. E aí? Não tento? Tentarei. Mas antes preciso aprender a nadar. Te lendo, talvez aprenda.

Beijo grande.