sexta-feira, setembro 18, 2009

Mistério


O Gato


Ela não me fala, mas sei que está lá. Sei mais, além do fato de que me sonega a tristeza e alguma queixa concreta. Conheço as coisas que insiste em não dizer, embora às vezes chegue a pressentir que ela já sabe. Há uma brincadeira que se desenrola entre um felino que sou eu e uma borboleta: a verdade dela. Posso esperar, também carrego meus inevitáveis segredos. Quase sempre tenho medo de que ela os leia numa melancolia mais densa escondida com cuidados atrás do vidro velado dos meus olhos. Depois acho que não, ela se move superficialmente demais na vida para que possa suspeitar-me. Mas eu queria que ela ou alguma outra me desvelasse um dia. Ah, tal mulher teria mais do que a minha alma, as minhas setenta vidas, todos os meus instintos, os meus melhores sentidos: teria a minha história reinventada exclusivamente pelo seu contentamento. Ela não me fala, mas há um silêncio que perpassa a distância que nos cabe através da mesa, das flores no jarro, dos copos e dos talheres, um oco que me transfixa uma dor e segue além de mim. Atrás da sua verborragia, tem esse silêncio sólido e poderoso que ela tenta esconder, mas eu sei. Sei?



A Borboleta

Ele me olha e eu acho que sabe. (__) Já disse um poeta que há coisas que nunca deveriam precisar ser ditas, em se tratando de amor. Verdades que se envergonhariam, caso não fossem generosamente adivinhadas pelo outro. Há muito temo pela vulgaridade de certas falas; mais prudente – em se tratando de manter a delicadeza - é guardar o segredo e silenciar. Há coisas demais na vida que podem ser ditas: o dia lindo, a decoração agradável, alguma notícia recém lida. Melhor manter a alegria efêmera de uma borboleta: tocar de leve o prato, a frase, os temas... É preciso preservar no outro a liberdade de não saber e, não sabendo, nada necessitar fazer. Desse modo, guardo comigo a dor que não se pode dizer, mistério enjaulado, peixe que raramente sobe bem próximo à superfície para logo em seguida sumir novamente na escuridão do fundo. Só não posso demorar-me demais em seus olhos: tenho as asas demasiado transparentes.
(Texto: CeciLia Cassal - Imagem: Hugo Amador, "Amor em Tons de Branco")

7 comentários:

Janaina Amado disse...

Cecília, que alegria voltar a ler seus textos aqui. Os dois são ótimos, mas o da borboleta... ah, este é magnífico!

CarolBorne disse...

"É preciso preservar no outro a liberdade de não saber e, não sabendo, nada necessitar fazer".

E sendo assim, o que mais posso acrescentar a este belo post?

Beijos, querida!

Bebel Mendonca disse...

maravilhoso e encantador.Quando quizer visite o meu tbm
abraços
www.izamendonca.blogspot.com

asphyxia disse...

olá, gostei do teu blog.tudo muito lindo.ja nao se usa mais tantas letras para se fazer entender. o que é uma pena. a palavra escrita vale mais que mil imagens.
abraços
paz

Hericka Zogbi J Dias, Dra. Me. disse...

Oi Cecília, querida! que bom mesmo te encontrar nesse mundinho... me embebedei de tuas palavras... ainda lerei mais!
apareça sempre!
um beijo bem grande!

regina ragazzi disse...

Adorei suas poesias. Muito lindas.Volto pra ler mais. Bjsss

Paulo Bentancur disse...

Cecília: eu li o primeiro "mistério", "O Gato", e achei que tinhas chegado ao ápice. E então leio "A Borboleta" e... que que é isso, meu Deus!? Tanta beleza e verdade juntas, somadas, entrelaçadas apesar da distância, e sem nenhuma dessas palavras-pedra precisando ser atiradas. Chega a doer de tão bonito e legítimo. Tu abusas com textos certeiros, e de uma intimidade que quase já não sonhávamos. Ufa!