quarta-feira, novembro 04, 2009

João Rudá



Rio dos Ameandros, 03 de novembro de 2009.

Senhora,

Não estranhe esta carta, eu apenas não sei falar. Mas escrevo. E graças às coleções de livros e revistas que deixou no rancho nas últimas vezes em que lá esteve, tenho escrito textos cada vez mais longos. Escrever tem me devolvido uma certa espécie de som e também por isso sou-lhe agradecido. Comecei com aquele livro enorme que tem as fotografias sobre as flores, depois o dos legumes, o das cercas vivas, aquele das pequenas frutas vermelhas da França... Quando me dei conta, não tinha passado um único dia destes últimos anos sem que eu sentasse na soleira do seu rancho (aliás, há uma tesoura no telhado sobre a cama que precisa de reparos. Se me autorizar, tratarei de trocá-la) depois das lides do jardim e da horta e lesse muitas daquelas páginas, antes de voltar para a casa. Li aquelas histórias e tratei de imaginar os lugares de que falavam, os tempos onde tinham sido escritos. Um deles lembrou as chuvas deste inverno sem fim e as cheias que enfrentamos no Rio dos Ameandros, as vacas boiando nas águas ligeiras, as barrigas inchadas de enchente e morte. Mas devo confessar-lhe que não gosto das poesias, talvez porque ainda não consiga achar para elas uma utilidade. Um dia, encontrei umas páginas escritas com sua letra. Achei que deveria voltar a dobrá-las e devolver-lhes ao livro. Fique sossegada, não li e nem toquei mais naquele volume.

Mas deixa que retome o que explicava no início, já que sei que deve ter ouvido várias coisas sobre a minha doença no armazém. Como todo mundo sabe, eu desaprendi a falar. E mais, nem eu não sei se sei falar. Há muito, uma doença que nunca me explicaram direito, tirou o som da minha própria voz. Tirou-me o som do mundo que eu conhecia. Contava eu a idade em que os pelos começam a aparecer no corpo de um piá, quando a febre chegou. Lembro da dor em minha cabeça, como se ela tivesse sido sendo aberta com um golpe de machado. Lembro de ter ficado parado por medo de que doesse mais. Nada mais, desse tempo. Dizem que dormi por meses, disso também não sei. Quando acordei, o mundo era feito de um escuro absoluto de ruídos. Não entendia o que aconteceu e, não sabendo se poderiam responder-me, preferi não perguntar, por fraqueza, susto ou abandono. Nada havia a fazer, além de ocupar-me dos dias chegando e morrendo através do vão feito janela aberto na parede de barro e palha do rancho onde morávamos, meus pais e irmão. Tomaram-me por mudo, acatei. Por isso, hoje não sei se sei falar. Aprendi a ler os olhos, muito mais do que os lábios. Sinto, muito mais do que compreendo. Algum tipo de silêncio, (lembre, para mim a vida é essa ausência da maneira mais absoluta que a senhora conseguir imaginar) principalmente aquele que chega cedo na manhã, me encanta e possui pelo dia todo. Ele parece mais completo do que o silêncio das vozes que não ouço. Aprendi a ler cedo, - ainda quando meu irmão freqüentava a escola e não tinha ido embora para a cidade - e a procurar tarde nos livros a relação com o que não ouço, mas pressinto. Com os livros, os bichos e os silêncios, enfrento, sem lutas, uma solidão de que não sofro.

Como a senhora sabe, nos últimos anos Helga preenche os meus dias com suas conversas. A ela pouco importa se eu respondo, se compreendo, se gosto: ela precisa falar e eu a olho. Nada mais é necessário, além de seus temperos plantados em linha sobre os canteiros, do que o cheiro de sua comida, nada mais além das suas panelas areadas e secas ao sol. Existem entre nós cuidados que poderiam evitar as palavras. Sobre Helga, tudo anda bem. Às vezes penso até mesmo que ela esteja feliz, de uma felicidade que eu aprendi definida nas coisas que leio.

Como primeira vez, tomo a liberdade de escrever-lhe para que possa dar-me também uma voz e porque temos sentido a sua falta, neste rancho em que a senhora decidiu colocar o nome do rio. Atrevo-me a mais do que escrever-lhe para – com todo o respeito que me foi ensinado – contar-lhe das últimas estações, do tamanho que as parreiras tomaram, da taipa que foi aprontada lá para o final do terreno, dos cardeais que fizeram ninho no oco queimado do raio, na árvore do fundo, dos alagamentos que arrastaram casas e gado e colheitas pelo rio. Escrevo-lhe por ter pensado e escrito umas impropriedades e dar-me ao desfrute de dizer-lhe, se não for para que se ocupe em corrigir-me, apenas para que talvez algo tente tocar-lhe nestes tempos em que não sabemos da senhora.

Outro dia escrevi assim: Um rio não precisa existir, se ninguém senta às suas margens para contemplá-lo. Um rio não merece existência, sem alguém que nele mergulhe, por necessidade ou gana ou simplesmente por amor à fluidez das águas entre as peles. Um rio não precisa, um rio nem precisa.

Por favor, Helga e eu gostaríamos de saber suas notícias, depois do seu adoecimento. Depois da morte de meu irmão, a senhora entrou em nossas vidas, fez-nos cuidadores de sua propriedade. Também nos afeiçoamos aos labradores e, como eles, nos alegra a poeira levantada pelo seu carro, quando completa a última curva da estrada. Não tome a mal essa carta, não a pense como uma impertinência. Apenas receba nosso reclame de saudade. Helga, se soubesse que lhe escrevo agora, talvez quisesse oferecer-lhe um chá.

Pense sobre o Rio.

João Rudá
(Imagem e Texto: CeciLia Cassal)

11 comentários:

Mara faturi disse...

EU ADOROOOOOO TUA POESIA, MAS TUA PROSA..AH!!! TUA PROSA É PURA POESIA;)
SAUDADES!!
GRANDE BJO AMIGA QUERIDA!

Luciane Slomka disse...

Como pode tu ser tão suave... Assim como a Mari, adoro a tua poesia e tua prosa. O carinho que tu faz a gente sentir pelo João Rudá é comovente. Linda, linda, como sempre, a tua Lua.
CeciLua.
Beijo com carinho

Cláudio B. Carlos (CC) disse...

Lindo...



Beijo,

CC

bossa_velha disse...

eu adoraria receber uma carta assim.

Re disse...

Escreves com a habitual sensibilidade que poucos conhecem, pena que distante.....

Rubens da Cunha disse...

que grande personagem, narrativa intensa, lírica... adorei

» Nøélya « disse...

Oláa!

Passei aqui para agradecer ao comentário que deixaste na Lagoa... O texto que minha amiga escolheu é lindo demais.. mais os que li aqui... nossa, são apaixonantes!

Belíssimas palavras as suas...

Beijos e volte sempre!!

Anônimo disse...

Minha querida! Vai escrever bem assim lá em casa!...
Un moro judio

mari disse...

Adoro tuas palavras suaves. Te amo, um beijão carinhoso Mariana

marcos pardim disse...

joão rudá, esrevendo ou sendo descrito, é personagem pelo qual nutro especialíssima predileção... 1 bj

Paulo Bentancur disse...

Cecília,

a poeta aqui comparece, claro (uma vez que a poesia é sempre uma espécie de textura do texto maior e mais fundo), mas é de prosa que se trata, e prosa de fôlego, prosa que alimentada por uma espécie de naturalismo renovado, no qual a sugestão de imagens e sensações tira a dureza habitual daquele naturalismo clássico e o moderniza para nós, teus contemporâneos, sortudos em te ler. Ficção das raras. Torço muito para que esse romance (é um romance, não?) chegue a seu desfecho e, logo, a uma edição à altura.

Beijo do teu leitor.