sábado, setembro 25, 2010

Entre Sombras

Transita entre ruelas que anoitecem à medida que enveredamos pelas linhas. Palavras-paralelepípedos, a dureza da pedra antes de ser atirada, nas mãos a frieza quadrada da pedra na penumbra. Mulheres. Vultos. Um espectro cavando um poço. Um nada consistente que interroga, lá do fundo, o que vem depois. Diáfano como a noite onírica, pesada como uma pedra na mão pronta para estilhaçar-nos as certezas numa açoriana rua vespertina que vai escurecendo, mulheres que nos tomam – leitores em suspensão – em suas teias, o segundo livro de contos do Saul nos povoa de signos que (in)deciframos e assim se demoram em nós, bem depois da leitura. Falam de vida e morte, música e arte, os contos do Saul Melo. Mas não de uma arte como a que andamos vendo em eventos recentes, essas artes difíceis de entendermos porque mal ajambradas, feitas de uma vontade de provocação que não se completa no olhar do outro. A arte do livro é costurar devagar um presente sempre relativo e os mitos, fiandeiras palavras. Assim, o Entre Sombras é um livro de contos para ser lido lento, um vinho raro que se bebe só, uma luz pequena iluminando o livro, a poltrona no canto do silêncio, o nada escuro no entorno. Eu gosto disso: textos que se entregam aos poucos, em camadas, o encadeamento dos contos quase um rosário, um colar de cont(a)(o)s, uma novela, para quem souber entender. Como a vida, com seus acontecimentos desconexos não se entrega assim, fácil, nem ao primeiro beijo, tampouco a algumas horas sobre um divã. A vida, como no livro do Saul, vem de degustar aos poucos, solene, em um ato onde a avidez só estraga, atropela, profana. Não, não vou falar mais sobre os contos, que isso a excelente Cíntia Lacroix (Sanga Menor, Dublinense, 2009) fez com toda a propriedade do mundo na apresentação do livro que – como se o conteúdo por si só não bastasse - tem um projeto gráfico belíssimo de capa e uma editoração primorosa.

Chega! Vamos ao convite. Volto em breve a essa órbita, num já que nunca sei bem quando.
Abraços em vocês.



Um comentário:

Mariana Chagas - NZ disse...

Tia ceci, que felicidade... Que saudadeeees!
Obrigada pela lembranca.
Amo voces demais!

Obrigada por tudo, sempre.
Grande beijo