sexta-feira, novembro 02, 2012

Avon Chama

Agora que já guardei a última colher do café na gaveta em que se guardam as colheres pequenas de café, e o chão da sala brilha o lustro dado pelas flanelas sobre as quais arrastei os pés durante meia tarde, posso contar-lhe: fui eu que matei Paula Beatriz. 
           Mas deixa que acomode a almofada da sua cadeira, a fim de que não lhe crie vincos nas peles das pernas. Demoram-se, depois, a sair, e por vezes deixam marcas vermelhas que aos outros podem constranger, se ficarem olhando pelo tempo suficiente para descobrir que são só vincos vermelhos causados por uma cadeira. E não é muito decente ficar olhando para as pernas de uma mulher por tanto tempo. Podem pensar maldade. 
           Pernas. Como é mesmo que ele chamou as pernas da Paula Beatriz, na primeira vez em que as viu? Daquela palavra que soa pecado já na hora em que se pronuncia: roliças. Na verdade, ele não viu as pernas daquela. Ela mostrou. 
           Chegou na porta dissimulada, a cara de santa, os cabelos deslambidos, toda rebocada, sorrindo, estudada: “Avon chama”. Quando ele atendeu, ela foi logo insinuando, aproveitando que eu tinha ido até o banco pagar a maldita conta adiantada antes que a conta me roubasse o sono, mas como eu ia dizendo, ela entrou, sentou naquele mesmo sofá ali, de napa vermelha, que você está vendo e deve ter cruzado as ditas pernas que, na noite, depois do terceiro martelinho, rindo largo, ele definiu: roliças! Como é que eu sei que foi assim? Ora, meu marido sempre me conta tudo, depois do terceiro copo. 
           Daí veio para ele com aquela história de que bom marido comprava perfume para a esposa, e – a título de demonstração sem nenhum compromisso – experimentava o perfume no punho e dava-lhe que cheirasse e dizia que imaginasse a mim, a esposa, se ele gostaria que a sua mulher fosse com ele vestindo duas gotas daquele perfume em outras partes... Safada! E desde quando se fala assim com o marido alheio? 
Quando cheguei em casa, suada e esbaforida do calor infernal da rua, lá estava ele, um romantismo fora de hora, me entregando o perfume que ela tinha, convenientemente na pronta-entrega, para vender. 
Já na hora estranhei. Ele, sempre tão contido nas questões de presentes – nunca, que me lembre, presenteou alguém fora das datas obrigatórias, que eu mesma deveria lembrar e advertir mil vezes até que ele abrisse a carteira e me desse o dinheiro do presente do filho, ou da mãe, ou do afilhado. “Mas afilhado precisa de tanto presente assim?” “Cinqüenta reais, uma calça de brim coringa?” Não é brim coringa, eu ensinava. E calava, porque já estava acostumada que ele tinha parado no tempo. Agora me vinha com aquela história de perfume fora de data, que coisa! 
           Depois o encontro no caixa do supermercado do Artur. A mesma micro-saia, dois dedos acima da fenda do pecado, jogou os cabelos para um lado e veio toda sorridente: “então, gostou do perfume que o Amâncio comprou?” Mas então aquilo eram intimidades? Ora, “o Amâncio”. Logo ele, tão rigoroso com os tratamentos, “o senhor”, “a senhora” até para pai e mãe, sendo tratado por “o Amâncio”. Naquela boca parecia coisa ruim, o nome do meu marido. “Gostei”, ainda sorri. Mas não deveria. 
           No outro mês, mal as contas tinham sido pagas e eu depositado os minguados que sobravam na poupança, lá veio ele me dizendo que precisava tirar um dinheiro, “umas despesas extras, não sabe?”. Pois bem na tarde em que eu fui ao banco buscar o dito dinheiro para ele ficar descansando do plantão da noite na refinaria, adivinhe o que aconteceu? “Avon chama”. E era uma chama muito alta, eu imagino, que naquele dia ganhei o colar da página central da revista de pedidos. “Uma jóia para uma jóia”, ele me disse, com sua originalidade de operário da estiva. Sabe Deus quantos colares ela provou! E logo naquela tarde, que a fila dos funcionários públicos no banco estava enorme. 
           Sabe, comecei a somar perfume e colar, um-mais-um, entende? Mas quieta. Um dia, teria uma idéia. Comigo era sempre assim. Deixei os estudos para casar com o Amâncio, mas sempre me informei muito e sou meio esperta para as coisas da vida. Qualquer um sabia do que iria acontecer, no mínimo, no próximo mês. A vendedora de cosméticos iria vender o que, mesmo? 
           Mas o destino é matreiro como mulher, que por sua vez é astuta como o diabo e, mês que chegou, ela teve uma tia doente para visitar no interior. Pois sim, acho é que ela fez o golpe de desaparecer. A velha tática de mulher, para ver se a falta era sentida. Fiquei esperando para ver se ele comentava. Não comentou. 
           Calado ele, muda eu. Tratei de pintar a casa e reformar o sofá da sala, que não queria mais aquele vermelho tão aceso no lar.  
           Passaram-se os meses, um dia ele volta do serviço, o pacote pequeno esticado no comprimento do braço: “Ó, prá você. Um batom. Vermelho.” Desde quando éramos namorados ele me dizia que mulher dele não usava esmalte vermelho. Batom vermelho, então, “coisa de mulher da vida”.  
Mas as pessoas mudam e, a título de comemorar, apressei-me a ir à geladeira, o primeiro martelinho gelado. O segundo, o terceiro, o quarto. Já no quarto, as duas gotas de perfume e o colar arrematando, perguntei assim, de improviso, como ela o tinha convencido a comprar... 
Homem puro, ele é. Nunca me escondeu nadinha nesta vida. Contou: “ela tirou da bolsa um batom com espelhinho, que limpou erguendo a barra da blusa, e abriu o batom. Bem devagar. “Cuidados, ele pode quebrar”, disse ela, enquanto girava a base. Bonita a imagem da ponta vermelha saindo lenta de dentro do tubo dourado. Primeiro a ponta, depois o resto... Então, esfregou lentamente o bastão (não conseguia dizer batom, o coitadinho, pelo álcool), primeiro do meio da boca para um canto do lábio, em cima. Depois, desenhou lentamente a voltinha do boca, o sulco, depois repetiu no outro lado e embaixo. Quando terminou, lambeu a boca bem devagar “para fixar”, ela disse. Daí, mulher, pensei em como ia ficar aquela beleza úmida em você. E comprei. Agora vem cá, que te arranco a saia.”
Eu não usava saia. Pobre do meu marido. Tão tolo. Bêbado por uma e enfeitiçado pela outra. 
Então, hoje de manhã, arrumei as camas e estendi as roupas da máquina de lavar que ganhei dele no último aniversário de casamento. Aproveitei que ele tinha saído cedinho, na madrugada, plantão de dia, desta vez. Passei o pano no chão, que ele não suporta poeira, dei o lustro nos quartos, que as tábuas têm de refletir o capricho da gente, minha mãe ensinou, varri a calçada sabendo que ela passaria por ali. Quando ela veio, chamei para uma compra. Aceitou o branquinho de festa, enrolado na véspera. 
O vidro, moído, parece bastante com açúcar de confeiteiro.
 
(Texto e Imagem: CeciLia Cassal)

 

2 comentários:

Cláudio B. Carlos disse...


Grande!

Dalva M. Ferreira disse...

Coitados de todos! E os sentidos, despertados pelos cheiros, pelos perfumes, pelas formas pecaminosas e roliças... Deu no que tinha que dar!